Seria mesmo possivel, viver assim com o parceiro para sempre? Acho impossivel... porque isso não é mais amor e sim: inimizade e essa não nos trás felicidade!!!

Xico Sá

Por Xico Sá . 27.03.11 - 16h12

O amor entrou mudo e saiu calado

Um casal vive há 20 anos na mais perfeita harmonia, sem trocar uma palavra. Nem um monossílabo, nem um pantim, nem um grunhido, nem um muxoxo, nem um arrulho, apenas o silêncio a lastrear o lindo amor dos pombinhos. Talvez seja a fórmula do sucesso, o Santo Graal dos relacionamentos, a chave do mistério. Assim vivem João e Maria, como aqui batizamos camufladamente a parelha evitando o som e à fúria dos urubus plantonistas.
Meu primo Zé Humberto contou a bela história ali na calçada de Tica e Dison, sábios e queridos tios que convivem com sabedoria e poucas palavras no discreto Sítio das Cobras, no mesmo município de Santana do Cariri adonde reina o casal mais calado do mundo.
João e Maria, meia dúzia de meninos, estão na faixa dos 65 de idade e deixaram de se falar por besteira e capricho. Certo dia, João a procurou, com teimosia e macheza, e Maria recusou-se a fazer os gostos sexuais do marido. Não estava a fim, pronto, queria ficar na dela.

Sem discussões
O cabra voltou a insistir por mais cinco vezes nas semanas seguintes. A católica Maria, cansada de guerras e gravidezes, manteve-se na resistência. Com o orgulho de macho ferido, ele fechou a cara. Em pouquíssimo tempo descobriram o bem que fazia aquele silêncio, passaram a conviver sem discussões ou arengas, estavam a dois passos do paraíso na terra.
Com a economia de palavras, não inventam conflitos, não brigam por miudezas, não ferem e não são feridos com o mal que sai da boca do homem. Meu primo Zé Humberto, que visita aquele lar doce lar semanalmente para a venda de carne em domicílio, assegura: não há casal mais feliz nas redondezas.
Até mesmo quando estão em dúvida se compram um talho de contrafilé ou de costela, por exemplo, eles tocam de ouvido. Num simples olhar espatifam-se as dúvidas sobre o cimento da sala como em uma mágica.
Dias desses, o homem da carne flagrou João morrendo de saudade. Maria estava passeando em São Paulo. Ele morria por dentro de tanta falta. De gozação e chiste, o visitante sugeriu um telefonema, pelo menos umas duas, três unidades de crédito no orelhão da esquina. O marido saudoso até se benzeu para evitar a tentação da proposta.
João aprecia mesmo, na mirada certeira dos seus olhos semi-áridos, é olhar a sua mulher sem que ela perceba. Admirá-la dormindo, por exemplo, a extrema beleza da calada da noite. Fica horas neste exercício, relembrando o tempo em que estragavam o amor com palavras como tapurus que botam a perder as melhores goiabas. João e Maria agoram contemplam a vida, ali nos ares da Chapada do Araripe, como um jovem casal de mãos dadas no silêncio escuro do cinema.
É calando que a gente se entende, diriam João e Maria, os meus personagens reais da semana. Os casais falam demais, intermináveis discussões de relação, as famosas dê-erres. Conviver também é cortar palavras, caro poeta itabirano. Conviver é catar o feijão sobre a mesa, como diria outro João, aquele do verso mais econômico.
Na fachada de todos os lares doces lares deveria ter inscrito, bem no alto, Silêncio!, como aquela velha placa dos hospitais. E quem tiver algo a dizer contra a advertência que fale agora. Ou cale-se para sempre.

Fonte: http://colunistas.yahoo.net/posts/9757.html

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